segunda-feira, 14 de abril de 2014

A lã que viajou mais que as ovelhas

Depois da minha enorme frustração com o desperdício de lã, uma boa notícia -  havia uma vizinha que ainda não tinha tosquiado as ovelhas e que me enviou uma caixa cheia de lã branca e com um bom bocado de lã preta. Fui buscar a lã no sábado à noite e domingo de manhã cedinho já estava no quintal do Miguel a lavá-la.

O processo foi mais ou menos uma colectânea de conhecimentos adquiridos – O que tenho andando a ler, o que vejo e o que a avó Ilda me disse.

Primeiro, a lã foi escolhida (não por mim, pela Ilda) – A pior ficou no Minho para se fazer almofadas e a que estava mais limpinha veio para Lisboa, para ser fiada.


No domingo, lavei a lã – primeiro com água morna para tirar a sujidade e principalmente a lanolina (a gordura natural que protege o fio). Se a água for muito fria a lanolina não se liberta, se for muito quente a lã feltra por isso aqui há que achar um compromisso. No “Manual do Fabricante de Tecidos” está uma série de banhos ácidos e alcalinos que podia experimentar contudo achei que 1) não era lã suficiente que justificasse preparar estes banhos 2) queria uma coisa mais natural, sem químicos (até porque se este processo já é feito há tanto tempo tem que haver uma maneira simples de o fazer) 3) pelo que li do processo tradicional e pelo que a Ilda me explicou não são precisos banhos ácidos e alcalinos nenhuns.



 Depois de tirar a maior parte desta gordura e da sujidade lavei a lã em água corrente com uma mangueira e um alguidar grande até a água sair limpinha.



Deixei o velo a secar ao sol, por cima de um telhado. Como estava sol, ao fim da tarde já tinha bocadinhos de velo secos. Os que não estavam ficaram esticados num estendal.



Agora era tempo de esgadelhar (tirar pequenas sujidades que tenham ficado e arranjar o velo) e cardar (“pentear” os fios dando-lhes orientação e preparando-os para fiar). Enquanto estava a esgadelhar o velo percebi que este era bastante macio e que ia ser fácil de fiar por isso experimentei com um bocadinho fiar e … saiu perfeito! Sem cardar! No dia anterior quando disse à Ilda que não tinha as escovas para cardar ela disse-me que não era preciso nada disso (adoro o lado prático da avó Ilda) – se esticasse os fios com as mãos com cuidado e paciência obtinha um bom resultado, o que foi verdade. Ela também me tinha avisado que lavar a lã com sabão só no final – a lã antes de ser lavada era mais fácil de fiar (verdade outra vez).




A verdade é que nunca fiei tão rápido nem tão bem como estou a fiar este fio - até consigo por o fuso manual a rodar sozinho, coisa que não conseguia.

Agora a próxima aventura vai ser torcer o fio – gosto demasiado dele para não o torcer e quero-o o mais resistente e durável possível, até porque quero dar-lhe o devido respeito que merece. Para isso preciso dum fuso especial (acho eu, pelo que tenho andado a ver) mas nada que com um bocadinho de imaginação não se faça.

No final posso dizer que estou satisfeita – o processo não é o bicho-de-sete-cabeças que tinha imaginado ao início e é gratificante saber que estou a conseguir fazer um fio meu.  



5 comentários:

  1. Wow, so interesting! I didn't know so many things happen to the fur before it becomes the wool thread.

    ResponderEliminar
  2. Que bom! Sempre se consegue arranjar lã =)
    Eu também fio a minha lã muitas vezes sem cardar - perde-se menos tempo e sai muito bem na mesma, sobretudo se for uma lã fofa. Já experimentei a fiar sem lavar e tem vantagens - só que para a lavar bem bem depois é um problema, fica tudo mais entranhado.

    E consegue-se perfeitamente torcer o fio nesse fuso (como tem um camarão na ponta é super fácil!). Basta deslizar as duas maçarocas para fora do fuso e pô-las cada uma em seu saco. Juntam-se os dois fios e basta depois girar o fuso no sentido inverso ao da fiação - resulta!

    Fico à espera de ver o resultado =)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Filipa! Estava a pensar lavar em meada, já tenho a meada feita e tudo, pelo menos foi assim que vi que algumas pessoas lavavam contudo ainda estou na dúvida se é melhor lavar em meada ou depois de já ter uma peça feita que sugeres ?(: Obrigada pelo comentário, ajudou muito lê-lo (:

      Eliminar
    2. Eu acho que é sempre melhor lavar a meada, a lã está mais solta e a sujidade sai melhor. Normalmente levo ao lume até ficar a água quase a ferver com um bocadinho de detergente durante um bom bocado. Depois é deixar esfriar e passar por água. O fio fica muito mais fofo, solto e está pronto a tricotar.
      Bom trabalho =)

      Eliminar
  3. Bom dia , alguém sabe onde posso comprar escovas para cardar lã de ovelha?
    Obg
    Elisabete

    ResponderEliminar

Please tell me what you think! *(: