sábado, 12 de abril de 2014



“Este comunitarismo pastoril não sobreviveu, mas os rebanhos continuam a existir, sendo as raças mais comuns as Bordaleira do Entre-Douro-e-Minho e a Churra. Em consequência desta actividade pastoril a tosquia das ovelhas propiciava a lã com que se produziam mantas, capas de burel, cobertores, meias, perneiras, enfim tudo o que era preciso para cobrir e proteger o corpo. Tempos houve em que toda a lã saída da tosquia tinha procura certa, mas hoje, para espanto dos mais velhos, a lã é queimada por falta de quem a queira…” in “Mulheres de Bucos – Cabeceiras de Basto – Trabalho da lã”

Para espanto dos mais velhos e meu.

A semana passada pedi um bocadinho de lã para ver se conseguia prepará-la para fiar e curiosamente não fiquei espantada quando me disseram que as ovelhas já tinham sido tosquiadas e a lã tinha sido queimada. “Ninguém a quer” é a resposta que oiço sempre. Não sei se tem a ver com a minha formação, mas isto revolta-me. Revolta-me ver material com imenso potencial a ser desperdiçado e ao mesmo tempo estar a ver petróleo a ser gasto para fazer fibras sintéticas. Digam onde é que está a sustentabilidade disto, porque eu não estou a perceber. Há muitos anos visitei uma fábrica de fibras sintéticas e posso dizer que muita gente ia deixar de vestir o que veste se visse o que eu vi.

Voltando à conversa do “é queimada” e “ninguém a quer”, já a ouvi quando falei com uma veterinária na Serra dos Candeeiros, oiço-a vezes sem conta no Minho (de onde era suposto vir a lã que falei), li sobre ela neste livro e na generalidade quando digo que me interesso por todo o processo de processamento da lã é o que me dizem que na realidade é feito.

Eu sei que nem toda a lã é boa e nem toda a lã pode ser aproveitada mas como é que nos últimos anos um produto que era a base do sustento de quem criava as ovelhas se tornou uma dor de cabeça para quem as tem? Não há petróleo, vamos gastar petróleo a fazer fibras sintéticas. Há lã natural, vamos deitar a lã fora – vamos substituir o produto original por um produtor parecido. E quanto mais parecido for, melhor. Mas não pode ser o original.

A conversa vem sempre em forma de história “Antigamente fazia-se assim…” mas o que eu queria mesmo era ouvir “Agora faz-se assim, porque com o que aprendemos optimizamos o processo e tornámo-lo viável”.


Para mim, a situação actual não é viável.


2 comentários:

  1. É realmente uma frustração permanente... O pior quase é o que vem a seguir "também não faz falta, não presta para nada, pica, agora há coisas melhores, isso já não se faz, etc".

    Eu tenho vindo a chegar à conclusão que a lã é boa lã. A que não dá para camisolas, dá para tapetes e a que não dá para tapetes dá para enchimentos. Há sempre quem tenha uso para os restos! =) Mas não havendo viabilidade económica, acaba por não haver interesse em produzir melhor lã, em tosquiar bem e ter mais cuidados. Assim é que realmente não chegamos a lado nenhum....

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  2. Concordo contigo a 100 %! Há sempre forma de aproveitar e penso que a questão da viabilidade económica é fruto da nossa mentalidade. Afinal consegui lã, mas não dessas ovelhas . A avó do Miguel quis ficar com a lã mais mal tratada para fazer almofadas.

    Ora e se o próprio produtor que queima a lã fizesse também as tais almofadas? Não demora assim tanto tempo, não dá tanto trabalho como fiar e podia ser uma fonte de rendimento extra para o produtor ( e acredito que houvesse quem as comprasse). Para mim o problema é que há a lã, há quem queira a lã mas o que falta é a ponte de ligação entre as duas coisas e é nessa ponte e nessa ligação que devemos trabalhar. (:

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