quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sobre o linho



“Em Portugal o Linho teve grande importância na vida, na cultura e na economia da região norte do país, principalmente em Ribeira-Lima, Canaveses (plural de Canavês e se refere aos campos de linho Canavês ou Cânhamo) e Moncorvo, na época dos descobrimentos e posteriormente, após a restauração em 1640, na reconstrução da economia e no equipamento dos navios em cordame e velas para as grandes viagens atlânticas e da colonização do Brasil.
A importância do linho na sua variedade “Cânhamo” (da planta LIAMBA) era tal que um Regimento Real de 29-VIII-1658 tornou a sua plantação e cultivo obrigatórios para os camponeses de Moncorvo!
Em Portugal, havia então três castas de linho: o Galego, o Mourisco e o Cânhamo. Destes o mais fino era o Galego e o Cânhamo o mais grosseiro.
De um vocabulário português de 1712 (Rafael Bluteau) cita-se a seguinte definição do linho:
“Linho. Planta que tem folhas triangulares e cuja casca tem muitos fios e com que se faz pano de linho. O linho depois de semeado e crescido se arranca e se ripa e deitado ao sol abre a baganha e sai linhaça. Ata-se o linho em molhos e feixes e se enterra na areia do rio, donde a seu tempo se tira, e secando ao sol, se maça e maçado se grama e gramando se tasquinha e tasquinhado se asseda para o apartar da estopa; fia-se depois e do fiado se faz pano”
Entre nós o linho está hoje reduzido a uma escala de produção artesanal, com métodos totalmente manuais e arcaicos. Uma vez semeado, em Outubro o Mourisco e em Março o Galego, a planta é regada intensamente até à floração. As flores do Galego são de cor lilás claro e a planta arranca-se em Julho. Segue-se uma série de operações para separar a parte fibrosa dos caules das plantas arrancadas. São elas a curtimenta, em água corrente ou parada durante alguns dias , para desenvolvimento da fermentação bacteriana que destruirá a parte lenhosa do caule; a maçagem, para desagregar e libertar as fibras, realizada em engenhos ou moinhos com tracção animal ou hidráulica; a espadelagem, operação manual feita com a espadela, espécie de cutelo de madeira macia e dura, para pré-paralizar as fibras; a assedagem para separar as fibras finas da estopa. Então o linho está pronto a ser fiado.”

Araújo, Mário; Melo e Castro, E. M.; “Manual da Engenharia Têxtil” – volume I; Fundação Calouste Gulbenkien; Lisboa, 1984


“A planta do Linho, como fornecedora de fibra têxtil, tem um passado histórico bastante longo na Península Ibérica. A sua utilização remonta à Idade Pré-Histórica, o que constata por vestígios deixados em cavernas e outros achados arqueológicos.
Quando das invasões romanas na Península Ibérica, a cultura do linho foi dinamizada tendo sido levadas sementes e panos de linho para Roma, uma vez que em Itália a cultura tinha pouca expressão e o linho aí produzido era de baixa qualidade.
Os Romanos desenvolveram a agricultura e, em consequência, a cultura do linho na Península Ibérica, tendo a invasão dos Visigodos provocado de início a queda da sua importância. Quando a cultura ressurgiu, dá-se a invasão árabe, que volta a desestabilizá-la. No entanto, a expulsão dos Árabes na Península Ibérica e do Reino de Portugal faz reavivar a cultura.
São então importantes pólos de produção industrial as regiões de Guimarães e Lamego.
Com a epopeia dos Descobrimentos e o abandono das terras por gentes que iam procurar fortuna além-mar, dá-se um decréscimo na importância da cultura embora esta não tenha desaparecido. Todavia, sofreu um grande revés, não tendo sido incrementada a sua industrialização, como aconteceu, por exemplo, em França, Espanha, Inglaterra e Países Baixos. (…)

A indústria do linho caracteriza-se, deste modo, por uma actividade instável no País, nunca chegando a organizar-se em moldes modernos de produção.
A fiação mecânica do linho, inventada em França por Philippe de Girard, em 1810, só trinta e cinco anos mais tarde chegou a Portugal através da fábrica de Torres Novas.
Com os Descobrimentos aparece um concorrente ao linho, o algodão, muito mais barato, muito mais fácil de obter (menos exigente em trabalho) provocando um decréscimo generalizado na importância da respectiva cultura, mantendo-se apenas nalgumas regiões do País.”

Lança, J. C. Estevéns; Baptista, J. M. Fernandes; “A cultura do Linho” – Série de Divulgação nº6; Instituto de Estruturas Agrárias e Desenvolvimento Rural; Lisboa; 1993

Apesar de praticamente extinta, a indústria/manufactura do Linho está muito bem documentada (melhor que a lã) e rapidamente se encontram referências quer históricas quer técnicas.

O livro da fotografia foi editado pela Câmara Municipal da Murtosa, juntamente com outras técnicas características da região de forma a deixar um registo de todo o processo (que como já observei tem as suas diferenças mesmo dentro do país).





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