quarta-feira, 23 de julho de 2014

Uma lição sobre lã portuguesa



“Quanto às lãs portuguesas, elas são dos tipos “Merino”, “Cruzado” e “Churro”.

As lãs portuguesas provêm principalmente dos distritos de Bragança, Guarda, Évora, Castelo Branco e Portalegre. Mas também há lãs do Algarve do tipo “Churro”.

Mais de metade da produção de lã portuguesa é do tipo “Cruzado” e existem muitas lãs pigmentadas – a que vulgarmente se chama lã Saragoça, com várias colorações de castanho.

Os ovinos que produzem a lã portuguesa são geralmente classificados do seguinte modo: (vidè: Curso de Técnica de Lanifícios – vol.1 – Bartolomeu de Oliveira Tavares Monteiro).

1 – Merino Alentejano, criado na província que lhe dá o nome, de tamanho médio, com velo de cerca de 5 kg e mais, nos machos, e de 3 kg nas ovelhas. A lã dá rendimento da ordem dos 50 por cento. Nas regiões de Évora e Estremoz aparece com frequência o merino preto.
2 – Merino Ribatejano, criado no Ribatejo, e que produz velos de 3 a 5 kg, com rendimento de 40 a 45 por cento.
3 – Merino da Beira Baixa, de pequena corpulência e pequena produção, cujas lãs dão rendimento de apenas 35 por cento. Este merino é semelhante ao do tipo espanhol.
Outras variedades de merinos existentes no nosso país incluem o Pialdo, de cor negra (as fibras pretas atingem a quase totalidade, mais de 99,9%) e de pigmentação dominante em relação ao branco das outras raças; o Fonte Boa, obtido por cruzamento com o Rambouillet e o merino espanhol; o Fonte boa-Precoce; o Precoce, do cruzamento de merino Precoce Soisson com o Chatillion; o merino espanhol, do tipo que se usou primitivamente para melhorar as raças de todo o mundo.
Os ovinos que fornecem a lã cruzada criam-se nas províncias da Estremadura, Beira Litoral, Beira Alta, Douro Litoral, Minho, Trás-os-Montes e parte do Baixo Alentejo, contando-se entre as suas variedades as seguintes:
1 – Campaniça, da parte sul do Baixo Alentejo, com produção de lã de bom comprimento e rendimento até 55 %
2 – Saloia, produtora de bom leite, mas com lãs de muito baixo rendimento, da ordem dos 30%)
3 – Cruzadas da Beira Alta, variedade de quase toda a província do mesmo nome e que, como a anterior, dá bom leite, mas velos de pequeno peso – 2 kg – com muitos pêlos “de prata”, embora com rendimento de 53-56 %
Nos ovinos produtores de lã churra, adequada especialmente para carpetes, distinguem-se as seguintes quatro variedades:
1 – Churro da Terra Fria, que tem seus pastos nas terras altas do Norte e Este de Bragança e é um ovino pequeno, com peso de velo à volta de 3.5 kg para os carneiros e 2.5 kg para as ovelhas, rendimento de lã da ordem dos 45 % e fibras compridas irregulares
2 – Churro da Terra Quente, do Sul do distrito de Bragança e em parte do distrito de Vila Real, com pesos de velo de 5 ou mais quilogramas, fibras muito compridas, que atingem 25 centímetros, e rendimento de 38 a 40%
3 – Churro da Beira Baixa, do norte da mesma província, onde a sul se cria o merino. A lã é comprida, com alguma ondulação e brilhante, tendo os velos de 3 a 3.5 kg e rendimento entre 35 e 40%. Produz muito leite que se utlizada na fabricação de queijo. A carne é, porém, inferior.
4 – Churro do Algarve, de toda esta província. O ovino é muito corpulento, embora pequeno o velo, pois não cobre a cabeça, a parte inferior do pescoço, a barriga e o rabo. A lã é comprida e grosseira, de rendimento até 60%.
(…)
A Mário de Morais deve-se a seguinte sistematização das lãs portuguesas, classificação que embora já de 1946 ainda não foi suplantada:

Grupo I – “Lãs mistas, com duas espécies de fêveras. Impróprias para artigos de vestuário.”
Grupo II – “Lãs de uma só espécie de fêveras. Próprias para artigos de vestuário.”
O Grupo I foi subdivido em dois tipos. O primeiro, das lãs churras típicas ou correntes, com 600 a 900 fibras por centímetro quadrado, com mais fibras grossas que finas atingindo aquelas, muito meduladas e sem ondulação, comprimentos até 30 centímetros e diâmetros até 130 microns e as últimas comprimentos de 5 a 10 centímetros e diâmetros de 15 a 20 microns. No segundo, ficaram as lãs churras super, com 800 a 1000 fibras por centímetro quadrado, com fibras grossas, e menores comprimentos (10 a 15 centímetros) e diâmetros (70 a 90 microns), se bem que as fibras finas apresentem maiores diâmetros ( 18 a 30 microns) que no tipo mencionado em primeiro lugar.
O Grupo II subdivide-se em três tipos: o primeiro, das lãs lustrosas lisas ou pouco meduladas e bastante compridas (cruzadas do tipo cheviote), com 1000 a 2500 fibras por centímetro quadrado, e de diâmetro médio entre os 30 a 36 microns, comprimento reguçar. Da ordem dos 10 centímetros, com fibras sem medula e de secção circular e correlativo bom toque; o segundo das lãs semi-lustrosas ou baças medianamente onduladas e de médio comprimento (cruzadas típicas) com 2500 a 2600 fibras por centímetro quadrado, comprimento regular das madeixas entre 8 e 10 centímetros, diâmetros de 25 a 30 microns nas fibras por vezes meduladas e com secção irregular e, pois, de toque áspero; o terceiro, das lãs sem brilho, muito onduladas e curtas (merinas típicas) com 6500 a 8000 fibras por centímetro quadrado geralmente com menos de 8 centímetros de comprimento muito regular, diâmetro inferior a 28 microns, igualmente muito regular, com bom toque e normalmente sem medula.
(…)”


Araújo, Mário; Melo e Castro, E. M.; “Manual da Engenharia Têxtil” – volume I; Fundação Calouste Gulbenkien; Lisboa, 1984

Excerto encontrado nas minhas pesquisas, que na minha opinião está bastante completo e perceptível.



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