quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016



É difícil abstrair-me do problema da indústria têxtil e dos seus desperdícios. Por isso, fazer a minha própria roupa e ser mais consciente daquilo que uso/compro e que deito fora é uma realidade. Não sou nem gosto de extremismos (até porque ser extremista nunca levou ninguém a bom porto). Acredito num meio termo e numa transição que seja feita conscientemente e não de uma forma cega.

Nos últimos 4 meses fiz cerca de 14 pares de meias, o que para mim é de espantar (considerando o tempo que levava a fazer um par de meias e o tempo que levo agora). Destas meias, apenas um par foi para mim e acredito que todos os pares de meias que fiz vão durar muito tempo e acima de tudo que foram feitos de forma consciente e cuidada. Sei que estão todos a uso e isso para mim é gratificante, saber que estou a calçar as pessoas que gosto.

Não é pela questão de ser feito à mão. Nem é tanto pela questão sentimental, como pode parecer. É porque estas, tanto eu que as fiz sei quem as usa como quem as usa sabe que fui eu que as fiz. É porque ninguém recebeu um ordenado vergonhoso para as fazer na outra ponta do mundo para serem usadas aqui, é porque houve uma escolha cuidada dos materiais.

Estou a tentar ser o mais responsável possível naquilo que dou e naquilo que uso e isso passa por adaptar o estilo de coisas que faço às minhas necessidades e às necessidades de quem me rodeia.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O mestre trabalha em cima do céu / The master works above the sky








Saímos de Lisboa bem cedo num domingo de manhã em direcção a sul para visitar a fábrica de chocalhos em Alcáçovas.

A verdade é que eu tenho esta coisa (que pode ser boa ou má) de gostar de saber como é que as coisas são feitas e quanto mais vejo mais vontade me dá de saber.

O processo em si é brilhante de tão simples que é, nunca deixando de ser um ofício e como tal requer uma habilidade que só o tempo pode trazer (como acontece com quase tudo).

Costuma dizer-se que o mestre trabalha em cima do céu, porque o topo do chocalho onde se enfia a correia designa-se por céu e quando se está a enformar esta zona do chocalho o mestre está efectivamente a trabalhar por cima do céu.

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We left Lisbon quite early on a Sunday morning following the path south to visit the “chocalhos”factory in Alcáçovas.

I have this thing (which can be a good or a bad thing) that makes me quite curious about how things are made and the more I see the more I want to know.

The process itself is brilliant because of its simplicity yet let us not forget it is a craft and like so it is requires a skill that only time can bring (the same way it happens with almost everything).


It is said that the master works above the sky because the sides on the top are called “céu” (sky) of the “chocalho” and when you are making the hoop for the leather belt on top of the “chocalho” you are working above the “céu” (sky) part hence you are “working above the sky”.



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Córdoba









Quando visitei Córdoba (e como seria de esperar) fiquei bastante impressionada com a mesquita, principalmente com os padrões na fachada. Na altura esforcei-me para tirar muitas fotografias e na minha cabeça começou-se a formar uma ideia muito clara do que queria fazer: passar os padrões da mesquita para padrões de tricot.

A ideia ficou na gaveta durante muito tempo, com muitos projectos para acabar. No inicio do ano e quando finalmente meti a lista de coisas que tinha para fazer em dia passei da ideia à ação e comecei a passar os padrões que tanto gostei para papel quadriculado. Aproveitei um workshop para aperfeiçoar a minha técnica de fazer malha a cores (que sendo sincera, era francamente má e desajeitada antes do workshop) e passado pouco tempo meti mãos à obra.

Na prática tinha mais padrões do que consegui utilizar mas tentei manter-me o mais fiel possível à imagem que me tinha ficado na mente e mantive a faixa branca entre os padrões.

Posso dizer com convicção que este par de meias foi a melhor coisa que já fiz em tricot na minha vida e que é de longe a que tem mais significado.

Utilizei lã beiroa e agulhas 3.5 /4 mm.

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When I visited Cordoba I was quite impressed with the mosque, mainly with its patterns in the outsider walls. While I was there I tried to take as much photos as I could of those patterns and in my head an idea started to assembler itself: I wanted to translate this patterns to knitting patterns.

The idea was in the back of my head for a while since I had many projects to finish. In the beginning of this year I finally finished everything and then I started to focus on the Córdoba patterns and started to pass them into square paper. I managed to go to a knitting workshop and I perfected my knitting technique (working with two colors since before the workshop I was quite bad at it) and after a while I finally started to work at it.

In the ended I took more drawings of the patterns that the ones I managed to use (I tried to keep as faithful as possible to the original idea and tried to maintain the white block between each pattern).

I can now say with conviction this is by far the best piece of knitting I have ever made and by far the more meaningful one.


I used beiroa wool and 3.5 / 4 mm needles.