segunda-feira, 7 de março de 2016



“A tentativa de recuperar e reciclar matérias-primas, baixando custos de produção nas gamas têxteis de menor qualidade, foi uma tendência que se desenhou em Inglaterra em meados do século XIX e cuja rápida expansão assegurou a competitividade da indústria de Yorkshire nos mercados externos. Foram tais as repercussões desta inovação que o processamento de lã reciclada veio a suplantar o processamento de lã natural, na segunda metade do século XIX (Jenkins,1994, xxiv; Jenkins et Malin,1991:7374).

(…)

Em Portugal, onde a indústria está posicionada nas gamas baixas e médias de fabrico de tecido, a tecnologia de esfarrapar chega tardiamente, o que pode ser interpretado como um sintoma de inércia empresarial. Na década de 1880, apenas as fábricas de lanifícios de grandes dimensões, situadas em Alenquer, Covilhã e Portalegre, começam a processar sobras dos teares e restos de fios de lãs como uma actividade relativamente marginal, cujo objectivo é aproveitar os desperdícios gerados pelas economias de escala das empresas. No entanto, vemos sobretudo as oficinas que laboram no mercado dos tecidos mais grosseiros, localizadas em Castanheira de Pera, Padornelo e Vale de Piedade, a seguirem o mesmo caminho, embora por motivos diferentes: neste caso está em causa a possibilidade de laborar com matérias-primas baratas e assim baixar os custos de produção.

Nas vésperas da Segunda Grande Guerra, das 4050 toneladas de matéria-prima consumidas pela fiação de cardado nacional, 28% provêm já da reciclagem da lã.”


“História do Trabalho e das Ocupações, Vol. I A Indústria Têxtil”; Coordenação de Nuno Luís Madureira; Lisboa, Editorial Celta, 2001



Tem sido a minha leitura diária nos últimos tempos e está a funcionar como uma espécie de bíblia do têxtil.

Na minha ingenuidade a reciclagem dos lanifícios era uma coisa relativamente recente (meio/fim do séc. XX). É sempre bom saber mais daquilo que ainda sei tão pouco. O excerto é pequeno, mas serve bem para ilustrar uma realidade que me passou ao lado durante muito tempo.

Gosto particularmente da “mostra” de lãs que tenho aqui: ao centro, das primeiras que fiei. As duas do meio são de lã reciclada e a que está no exterior é proveniente de uma raça autóctone espanhola.


Depois de saber isto, já não é bem a mesma coisa não é verdade? Como ouvi num dos documentários que vi ultimamente (ando obcecada com documentários) depois de se saber a história/processo por detrás das coisas, cabe-nos a nós saber como vamos lidar e processar esta informação que recebemos. E dificilmente se volta atrás.



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